quinta-feira, 9 de julho de 2009

Mensagem do Senador Cristovam Buarque a Todos os Bomberos e Socrristas de SC.





MENSAGEM DO SENADOR CRISTOVAM BUARQUE AO DIA NACIONAL DOS BOMBEIROS E DIA MUNICIPAL DO SOCORRISTA DE BLUMENAU – SC.

Um bom‐dia a cada uma e a cada um de vocês, um bom‐dia aos soldados do fogo, um bom‐dia à todos os socorristas e a todos que assistem a esta solenidade!

Se perguntarmos às crianças brasileiras o que elas querem ser quando crescerem, certamente, nessa pesquisa, ‘bombeiro’ vai aparecer em primeiro lugar. É possível que, nos Estados Unidos, a escolha seja ‘astronauta’. É possível que, hoje, ‘jogador de futebol’ até tenha um certo prestígio, mas a escolha continua sendo ‘bombeiro’. No meu tempo de criança, creio que era praticamente unânime a idéia de, ao crescer, ser bombeiro. O destino me fez, em vez de bombeiro, incendiário, porque creio que um bom professor é aquele que toca fogo no juízo da criança, fazendo com que ela queira conhecer cada vez mais o mundo e queira cada vez mais mudar o mundo.

Cheguei a sonhar em ser bombeiro quando, vivendo nos Estados Unidos, tentei ser socorrista ou bombeiro voluntário, porque lá essa é uma prática muito comum. Lamentavelmente, eu trabalhava numa instituição internacional, e, portanto, a lei não dava a obrigatoriedade de liberar para os treinamentos.

Tenho, portanto, um certo sentimento de inveja. É uma inveja boa, uma inveja que satisfaz a gente, porque eu gostaria de, em vez de estar aqui, estar aí como bombeiro ou socorrista. Por que isso? Até para ficar claro que esse é um sentimento natural, que tem lógica. Vocês reúnem três coisas que raramente um profissional reúne. Reúnem, em primeiro lugar, aquilo que atrai qualquer jovem, que é o heroísmo. São pouquíssimas. Há alguns desbravadores civis que vão à Amazônia, alguns médicos que trabalham lá no fundo do território brasileiro, alguns servidores públicos que trabalham nas fronteiras, a Polícia Federal. Não são muitas as instituições e os cargos que a gente pode dizer que são carregados da idéia de heroísmo, mas há alguns. Então, por que bombeiro? Por que socorrista? Porque, além desse heroísmo, vocês trazem o sentimento do serviço público. É um heroísmo que serve, que salva vidas. Não é apenas um heroísmo daqueles que enfrentam para manter a ordem, como o faz a Polícia, em geral. Vocês agem para salvar vidas. Que coisa mais bonita a gente querer ser quando jovem um herói que salva vidas!

E, em terceiro lugar, há o reconhecimento público. Há heróis que salvam vidas escondidos nas salas de operação de hospitais precários por este Brasil afora. Há
médicos que são verdadeiros heróis por conseguirem fazer milagres com os poucos recursos recebidos pela sociedade brasileira, por intermédio dos seus governos. Mesmo assim, eles são heróis e salvam vidas, mas eles não têm o terceiro item, que é o reconhecimento público. Vocês são reconhecidos. Qual a criança, qual o jovem que não quer ser reconhecido? Por isso, muitos falam em ser jogadores de futebol, menos pelo dinheiro que ganha e mais pelo reconhecimento público.

O bombeiro, o socorrista, é aquele profissional que consegue reunir estes três vetores, estes três componentes que levam a esses sonhos que os jovens têm: o reconhecimento público, o fato de salvar vidas e o heroísmo. Por isso, digo que, quando criança, como milhões de outros meninos neste País e, hoje, há meninas também, embora aqui eu veja apenas uma na Corporação, mas o processo está crescendo, eu sonhava em ser bombeiro. Qual criança não quer ser bombeiro? É uma aspiração.

Tive o privilégio de ocupar muitos cargos, diversos cargos, e quero dizer a vocês que um daqueles de que me orgulho é ter sido Comandante‐em‐Chefe, como Governador, do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, da Polícia Militar e da Polícia Civil, como também o professor nº 1, como Governador, entre os professores do nosso Distrito Federal.

Se posso dizer de uma alegria que tive, se há uma coisa da qual me orgulho, foi de um fato que aconteceu há alguns anos, depois de ter sido Governador: eu estava no meu carrinho, com minha esposa, perto da rodoviária, passamos ao lado de um carro do Corpo de Bombeiros, e não sei quem tocou a sirene para mim. Quero dizer que, na minha vida, aquilo valeu mais do que qualquer aplauso que eu tenha recebido em qualquer palestra, conferência, comício ou discurso que eu tenha feito na minha vida. Aquele foi um reconhecimento espontâneo de um grupo de soldados da Corporação que muito nos orgulha.

Lamento que não possamos criar no Brasil um Corpo de Bombeiros para aquilo que a gente não vê como fogo, mas que consome as entranhas deste País, às vezes de maneira pior do que um verdadeiro incêndio. Creio, por exemplo, que não há incêndio pior neste País do que o fato de, a cada minuto, sessenta crianças abandonarem a escola no Brasil. Para mim, esse é o pior dos incêndios, porque é um incêndio ao revés, é um incêndio que apaga da mente a chama da criatividade, o potencial da população brasileira no futuro.

Lamento que não haja bombeiros para apagar esse fogo que corrói por dentro a vida de um desempregado. Quando a gente vê fogo, imediatamente liga para os
bombeiros, e eles chegam; quando a gente vê um desempregado, a gente nem sabe se ele é desempregado, a gente nem percebe o fogo que o está consumindo por dentro.

Lamento que não haja bombeiro, para tocar uma sirene quando a gente vê um adulto que não sabe ler; essa sirene tocaria e faria com que todos corrêssemos para ele, faria com que o carregássemos nos braços e o ensinássemos a ler, como se fosse uma espécie de décimo primeiro mandamento: ensinarás teu próximo como a teu próprio filho.

É uma pena que não haja bombeiros para esses outros incêndios que a sociedade brasileira faz questão de ver como algo invisível Mas, felizmente, pelo menos, aquele fogo visível que queima, sobretudo, propriedades e corpos, esse, felizmente, hoje, a gente sabe que está sendo bem cuidado, que está em boas mãos, em mãos de competentes soldados, como pude ver durante o tempo em que fui Governador ao acompanhar o dia‐a‐dia do trabalho de vocês. Não vou negar que, como político, eu poderia ter a tentação até de vir aqui lembrar o que foi feito nos meus quatros anos pelo Corpo de Bombeiros, mas eu estaria diminuindo esta homenagem.

Por isso, quero concluir, dizendo que eu queria ser bombeiro quando pequeno. Virei professor incendiário, mas querendo apagar os incêndios que os outros não vêem. Dedico minha vida de bombeiro a querer trazer de volta esses sessenta meninos e meninas que saem a cada minuto da escola para entro da escola; dedico minha vida de bombeiro querendo fazer com que esses dezesseis milhões de brasileiros adultos que não sabem ler aprendama ler e com que esses brasileiros que sofrem a queima interna da desmoralização, da fome até, por falta de emprego, possam ter emprego por meio da educação.

Continuo, portanto, como professor incendiário, mas como político bombeiro, não para apagar a superficialidade do jogo da política. Não! Sou bombeiro para apagar o incêndio que queima as entranhas da sociedade brasileira. E é por esse meu trabalho, por esse meu compromisso que espero, um dia, como minha última honra, fazer minha última viagem em cima de um carro de bombeiros. Agradeço muito a vocês pelo que fizeram e fazem. Agradeço‐lhes, de antemão, esperando que faltem muitas décadas para este dia, se um bombeiro conduzir o carro em que eu fizer minha última viagem.

Um abraço a todos
Cristovam Buarque

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